A Crítica das Fontes dedica-se à investigação da etapa em que se começou a produzir textos escritos mais elaborados. Um processo que desembocou nos evangelhos canônicos. É importante considerar que antes de termos os textos elaborados, mesmo no período da tradição oral, era possível a produção de textos que compunham algumas tradições da vida e ensino de Jesus. O grande questionamento é: se é que houve, quais foram as fontes que os evangelistas usaram durante a redação de seus evangelhos?
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
A FORMAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO (Parte 3)
A Crítica das Fontes dedica-se à investigação da etapa em que se começou a produzir textos escritos mais elaborados. Um processo que desembocou nos evangelhos canônicos. É importante considerar que antes de termos os textos elaborados, mesmo no período da tradição oral, era possível a produção de textos que compunham algumas tradições da vida e ensino de Jesus. O grande questionamento é: se é que houve, quais foram as fontes que os evangelistas usaram durante a redação de seus evangelhos?
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
A FORMAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO (Parte 2)
A Crítica da Forma ou Tradição Oral foi o período anterior à existência de textos escritos sobre a vida e o ensino de Jesus, pelo menos textos de grande importância. Trata-se de um período em que as informações que formaram os evangelhos foram transmitidas oralmente. Talvez um período em torno de 20 anos se localizarmos a composição de Marcos no ano 50 a.D.
A crítica da forma, inicialmente aplicada no estudo do Antigo Testamento, vem desde o começo do século XX sendo usada no estudo do Novo Testamento.
Proponentes:
Karl Ludwig Schmidt, Martin Dibelius e Rudolf Bultmann.
Pressupostos:
1. Relatos sobre a vida e declarações de Jesus circularam em pequenas unidades independentes;
2. Pode-se comparar a transmissão dos dados dos evangelhos com a transmissão de outras tradições populares religiosas (comunidade);
3. Os relatos e declarações de Jesus assumem certas formas padronizadas (daí o nome: crítica ou história das formas);
4. A forma de um relato ou declaração específicos possibilita a determinação de seu Sitz im Leben (situação de vida) – o contexto na vida da igreja primitiva ;
5. A comunidade não só colocou as declarações e histórias de Jesus em certas formas como também adequou esse material às suas próprias necessidades e situações ;
6. A utilização de critérios que ajudam a determinar a idade e fidedignidade histórica de certas perícopes. Tais critérios baseiam-se em leis de transmissão, que de acordo com essas supostas leis as pessoas tendem a:
• Ampliar seus relatos;
• Acrescentar detalhes;
• Conformar com seu próprio vocabulário;
• Geralmente preservar e criar somente o que se harmoniza com suas necessidades e crenças.
A conclusão de muitos críticos com base nessas leis é que os dados mais breves, com menos detalhes, em que há semitismos e não se harmonizam com os interesses da igreja primitiva ou judaísmo do século I são os mais antigos e tem nesse caso maior probabilidade de serem históricos.
Ex:. Marcos 13.32 – Jesus emprega uma linguagem que não é típica do judaísmo “o Filho” – A ignorância de Jesus que se choca com uma crença da igreja primitiva.
• Sustenta que o material autêntico concorda com material isolado pelo critério da dessemelhança;
• Dá preferência aos dados encontrados em mais de uma corrente de tradição (Marcos e Q).
Houve de fato um período de transmissão oral e grande parte desse material provavelmente se compunham de unidades pequenas; é provável que esse material tendesse a uma forma padrão; e a igreja deve ter influenciado a maneira como esse material foi transmitido.
Considerações:
• É possível que já houvesse material escrito;
• É pouco provável que se consiga, com exatidão, identificar uma situação vivencial da igreja primitiva (2 Coríntios 5.16b);
• Um pecado cometido pelos críticos da forma é não ter dado quase nenhuma atenção ao papel de indivíduos na modelação e transmissão de dados;
• É questionável a comparação que os críticos fazem entre a transmissão dos dados dos evangelhos ao longo de 20 anos e outros dados críticos que são usados. Por exemplo: a literatura rabínica. “Os evangelhos formam um gênero literário à parte, que não se assemelha em nada aos gêneros conhecidos na literatura profana “;
• Nem sempre a tradição oral tende a aumentar o material. O que se deve criticar é o critério de autenticidade;
• Nem sempre as declarações isoladas são as autênticas, mas em alguns casos as que nos dão certeza;
• A crítica da forma deixa na maioria das vezes de considerar a presença de testemunhas oculares: hora hostis; hora capazes de usar os métodos da transmissão de tradições rabínicas (materiais escritos e memorização);
• Acreditamos que os cristãos primitivos estavam desejosos de transmitir com exatidão os feitos e as palavras de Jesus.
A FORMAÇÃO DO TEXTO DO NOVO TESTAMENTO
Hoje, quando lemos o Novo Testamento encontramos um texto cuja estilização tipográfica está bem organizada. Contudo, não damos conta da diversidade e complexidade dos documentos que formam a base do texto impresso. Ou seja, aqueles textos que foram produzidos na "era apostólica". Segundo Paroschi não temos o documento original do NT, apenas cópias. Os manuscritos completos mais antigos remontam o século IV. Diante destes fatos alguns problemas são levantados:
Primeiro, o tempo que separa a redação original do texto preservado tem aproximadamente 300 anos. Um longo período onde cópias e cópias de cópias forma produzidas. É muito tempo, e isso abre a possibilidade de dúvidas quanto a autenticidade dos textos, devido ao excesso de cópias. No entanto, deve-se considerar que a distância entre o original e o primeiro texto conservado é muito menor para os escritos do NT do que para outros escritos da antigüidade. A primeira cópia da obra de Ésquilo (525-456 a.C.) data do ano 1000 d.C., aproximadamente.
Outro problema é avaliar a distância que separa a redação dos escritos do NT, dos acontecimentos que eles testemunham, algo em torno de 15 a 20 anos.
Podemos começar pelos evangelhos sinóticos, mesmo não sendo estes os primeiros textos do Novo Testamento a serem escritos. O termo sinótico do grego synopsis significa ver em conjunto. Os três evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas foram chamados de sinóticos pela primeira vez por J.J. Griesbach, teólogo alemão do século XVIII. Os sinóticos apresentam traços, no ministério de Jesus, que envolvem estrutura, semelhança e enfoque.
Há um ordem de acontecimentos que mantém grande similaridade: Ministério na Galiléia; Retirada para o norte (clímax – confissão de Pedro); Ministério na Judéia e Peréia (quando Jesus se dirigia para Jerusalém – não muito claro em Lucas); Ministério final em Jerusalém. Taciano no século II combinou os quatro evangelhos em um conteúdo chamado Diatessaron. Agostinho escreveu A Harmonia dos Evangelhos. Marcião, ainda no século II, suprimiu três dos quatro evangelhos ficando apenas com o de Lucas. Mas, é justamente Lucas quem menciona como as informações lhe chegaram:
“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, 3 igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, 4 para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.” (Lucas 1.1-4)
Lucas, portanto, reconhece três etapas:
1. As testemunhas oculares e ministros da palavra (transmitiram – tradição oral)
2. Os muitos que empreenderam a narração coordenada dos fatos (narração textual – etapa em que as fontes escritas começaram a surgir)
3. O próprio Lucas que, a partir das fontes, elabora seu próprio relato “exposição em ordem” (autoria final).
Conforme Cullman “cada evangelista, na realidade, somente tinha à sua disposição narrações e palavras isoladas de Jesus, que foram transmitidas pela tradição oral; ele podia, portanto, estabelecer o plano que queria”.
Ao longo dos últimos 200 anos surgiram vários enfoques para tratar deste problema. Três enfoques deram contribuições distintas e relevantes para o problema das origens e desenvolvimento dos evangelhos:
• A Crítica da Forma (Formegschichte) – concentra a atenção no período da transmissão oral;
• A Crítica das Fontes – focaliza a maneira como unidades diferentes foram reunidas para constituir os evangelhos;
• A Crítica da Redação (Redaktionsgeschite) – focaliza as contribuições literárias e teológicas dos autores dos evangelhos.
Estas três formas são muito semelhantes às três etapas propostas por Lucas. Elas não são exclusivas e podem ser usadas simultaneamente (análise ou crítica da tradição – Traditionsgeschichte). Discutiremos melhor nas próximas postagens.
Há um ordem de acontecimentos que mantém grande similaridade: Ministério na Galiléia; Retirada para o norte (clímax – confissão de Pedro); Ministério na Judéia e Peréia (quando Jesus se dirigia para Jerusalém – não muito claro em Lucas); Ministério final em Jerusalém. Taciano no século II combinou os quatro evangelhos em um conteúdo chamado Diatessaron. Agostinho escreveu A Harmonia dos Evangelhos. Marcião, ainda no século II, suprimiu três dos quatro evangelhos ficando apenas com o de Lucas. Mas, é justamente Lucas quem menciona como as informações lhe chegaram:
“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, 3 igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, 4 para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.” (Lucas 1.1-4)
Lucas, portanto, reconhece três etapas:
1. As testemunhas oculares e ministros da palavra (transmitiram – tradição oral)
2. Os muitos que empreenderam a narração coordenada dos fatos (narração textual – etapa em que as fontes escritas começaram a surgir)
3. O próprio Lucas que, a partir das fontes, elabora seu próprio relato “exposição em ordem” (autoria final).
Conforme Cullman “cada evangelista, na realidade, somente tinha à sua disposição narrações e palavras isoladas de Jesus, que foram transmitidas pela tradição oral; ele podia, portanto, estabelecer o plano que queria”.
Ao longo dos últimos 200 anos surgiram vários enfoques para tratar deste problema. Três enfoques deram contribuições distintas e relevantes para o problema das origens e desenvolvimento dos evangelhos:
• A Crítica da Forma (Formegschichte) – concentra a atenção no período da transmissão oral;
• A Crítica das Fontes – focaliza a maneira como unidades diferentes foram reunidas para constituir os evangelhos;
• A Crítica da Redação (Redaktionsgeschite) – focaliza as contribuições literárias e teológicas dos autores dos evangelhos.
Estas três formas são muito semelhantes às três etapas propostas por Lucas. Elas não são exclusivas e podem ser usadas simultaneamente (análise ou crítica da tradição – Traditionsgeschichte). Discutiremos melhor nas próximas postagens.
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